sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Na memória: 60 anos de manifestações culturais ao ar livre

O cinema popular sobre quatro rodas, Cine Grátis, trouxe momentos de entretenimento aos belorizontinos durante onze anos

“A Agência Americana de Assinaturas tem a honra e a satisfação de convidar V. Senhoria, Exma. Família e dignos auxiliares desta casa, para assistirem à sessão de lançamento de seu Departamento de Publicidade CINE GRÁTIS”. E assim, tudo começou para que a primeira exibição do projeto acontecesse, dia 03 de setembro de 1949. Pelas escadarias da Igreja Matriz São José, o filme “O Gordo e o Magro” foi a primeira exibição feita para a grande multidão que comparecia ao local. O convite foi enviado a todos os comerciantes de Belo Horizonte e a notícia se espalhou boca a boca. E, a partir de então, o Cine Grátis conquistou por onze anos a capital mineira.
A cada dia da semana o cinema popular acontecia em algum local público da cidade e contava com uma programação extensa e diversificada. Toda sua estrutura era montada em cima de um Ford modelo 33, no qual uma engenhoca de madeira dobrável em três partes, se tornava uma mesa de projeção. A tela de 12 metros era montada minutos antes das apresentações. As sessões aconteciam entre 8 e 10 horas da noite e atraíam cerca de duas mil pessoas para prestigiar as programações, que variavam entre curtas-metragens, desenhos animados, filmes educativos, comédias e documentários. Cine Grátis contava com o apoio do Conselho de Trânsito para isolar a área e da Companhia Força e Luz para colocar sacos plásticos pretos nas luzes, com o intuito de abafar a iluminação das praças.
Segundo Márcio Quintino dos Santos, um de seus fundadores, toda a história começou de uma brincadeira no Colégio Arnaldo. Ele, Márcio Duffles, Danilo Carvalho, Hélio Coscarelli e João Jacques, se juntaram para produzir o cinema popular. “A curiosidade surgiu a partir das aulas de projeção que tínhamos no colégio” contou Márcio Quintino. O maior objetivo do projeto era levar cultura a quem não tinha acesso. “Se o povo não vai até o cinema, nós levamos o cinema atrás do povo”, lembra Márcio.
O encanto do público
O projeto vivia exclusivamente de publicidade. Entre os intervalos dos filmes, slides de propaganda dos patrocinadores eram exibidos. Como pagamento, as empresas faziam publicidade apoiando o Cine Grátis e pagavam certa quantia para custear os aluguéis dos filmes, que vinham diretamente de São Paulo. Além disso, campanhas educativas, sanitárias, cívicas e políticas faziam parte da programação. Segundo Quintino, JK era freqüentador assíduo das noites de exibições da Praça da Liberdade. “Ele utilizou o espaço publicitário para fazer campanha política para governador em 1950 e presidente em 1955.”
A aposentada Zilda Macedo, 78 anos, lembra do Cine Grátis como parte da sua vida. “As pessoas iam muito bem vestidas para as sessões. Parecia até uma festa! Eu e minhas amigas sempre íamos à Praça da Liberdade assistir aos filmes”. Já a professora aposentada Maria Auxiliadora Santos, recorda: “naquela época eu costumava ir à Praça do bairro Santa Tereza. Era bom demais (risos). Ia uma turma de moças, a gente assistia o filme e paquerava os rapazes. Era a nossa diversão de quase toda semana”.
Márcio Quintino conta que a programação atraía famílias, crianças e principalmente casais de namorados. “Por muitos anos recebi cartas de pessoas que começaram a namorar em frente as telas, casaram e tiveram filhos. O mais marcante foi um casal que escreveu contando que colocou o nome do seu filho de José Cine Grátis. Achei uma maluquice, mas eles quiseram.”
A mudança para Brasília
Em 1958, Márcio Quintino foi chamado por JK para trabalhar nas obras da construção de Brasília. Dois anos depois ele levou o projeto para as ruas da nova capital do país. Por mais dez anos ele permaneceu fazendo o cinema popular por lá. Porém, a evolução da TV, o crescimento da violência e a falta de compreensão e solidariedade das pessoas, fizeram o Cine Grátis acabar. “As pessoas passaram a ficar mais em casa, a violência havia crescido. O cinema é apresentado como uma possibilidade de redescobrir a própria cultura e identificar-se com valores do seus país através das telas. Ele encarna nossas almas, sonhos, fantasias e histórias. Morro de saudades dos tempos do Cine Grátis, pois passei parte da minha vida em dedicação a ele” conta Márcio Quintino.
Atualmente o acervo do Cine Grátis encontra-se no CRAV – Centro de Referência Audiovisual de Belo Horizonte, e está disponível para consultas e pesquisas.
1999 – Bodas de Ouro do Cine Grátis
Na comemoração do cinqüentenário de criação do Cine Grátis, em 1999, o animador cultural Márcio Quintino dos Santos foi agraciado em solenidade realizada no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, com o troféu que tem como patrono o cineasta Humberto Mauro e onde foi exibido o filme “Cinema Paradiso”, do italiano Guiseppe Tornatore. A solenidade fez parte do projeto “Savassi 2000 – Arte na Praça, que desencadeou uma grande movimentação cultural.
Anualmente o troféu se destina a agraciar 10 personalidades que tenham se destacado no setor das artes audiovisuais, é um reconhecimento ao valor de quantos, em qualquer tempo tenham contribuído para o desenvolvimento de tais artes.Humberto Duarte Mauro, nascido em Volta Grande, Minas Gerais, se instalou em Cataguases aos 13 anos e fez daquela cidade um dos mais importantes pólos do cinema brasileiro devido ao seu pioneirismo.Entre 1925 e 1974 fez filmes sempre com temas brasileiros.
Na comemoração do cinqüentenário do Cine Grátis, também foi criada na vitrine do Café-Livraria da Travessa, ponto de encontro de intelectuais, uma espécie de museu do Cine Grátis. Lá, foram colocadas máquinas antigas de cinema e fotos antigas da promoção, além da exposição, foram exibidos vários filmes na praça. O projeto foi idealizado pelo empresário e pelos produtores culturais, Fábio Campos, Maria Inês Mascarenhas e Luis Otávio Brandão, e teve o objetivo de colocar a arte “cara a cara” com o público.
As projeções do Cine Grátis ao ar livre marcaram época como um evento de grande entretenimento nos anos 50 em Belo Horizonte, e como recordação dessa época foram selecionados curtas, documentários educativos, desenhos animados e um audiovisual produzido por Quintino e selecionado em seus arquivos particulares, constantemente fontes de referências para pesquisadores interessados em estudar imagens doas anos 40, 50 e 60, para serem exibidos na praça.
O Cine Grátis foi um projeto que propiciou a inserção da cultura no processo de desenvolvimento cultural de muitas pessoas que não tinham acesso à 7ª arte, por isso essa homenagem prestada ao idealizador do projeto significou uma homenagem a um momento particular na história da vida cultural de Belo Horizonte, o pioneirismo de Quintino ao promover e difundir a cultura e a publicidade áudio-visual na cidade.
Apesar da rusticidade do sistema de exibição, que usava um projetor de 16 milímetros, e do grande número de propagandas que eram exibidas por seção para cobrir os custos dos aluguéis dos filmes, milhares de pessoas se divertiram com o entretenimento de tal forma que fez do Cine Grátis uma lenda cultural, pois foi numa época em que a televisão ainda não havia chagado ao Brasil e a atração ainda era o rádio.

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